Pesquisadores descobrem nova espécie de libélula no Cerrado da UFSCar

Uma nova espécie de libélula foi descoberta durante uma pesquisa de campo no fragmento remanescente de Cerrado do Campus São Carlos da UFSCar. O inseto foi visto na área do córrego do Espraiado pelo professor Rhainer Guillermo Nascimento Ferreira, do Departamento de Hidrobiologia (DHb) da UFSCar, e por Rodrigo Roucourt Cezário, biólogo pela UFSCar e mestrando em Entomologia pela Universidade de São Paulo (USP). A nova espécie foi batizada como Heteragrion gorbi sp. nov., em homenagem ao professor Stanislav Gorb, da Universidade de Kiel, na Alemanha, um dos maiores pesquisadores de libélulas do mundo e coorientador de doutorado de Ferreira.

De acordo com Ferreira, as características que diferenciam a nova espécie das demais libélulas são muito específicas, sendo apenas perceptíveis para especialistas da área. A coloração azul da nova libélula, porém, é um aspecto que pode ser notado pelo público em geral – “não se trata de uma característica exclusiva, mas a grande maioria das espécies desse gênero tem um tom ocre amarelado”, detalha. As libélulas do gênero Heteragrion, ao qual pertence a nova espécie, são animais delgados e rápidos no voo. Estão entre as poucas donzelinhas (libélulas da subordem Zygoptera) que pousam de asas abertas. Ocorrem principalmente em pequenos córregos de água limpa, com cobertura de uma mata de galeria (mais fechada).

O docente da UFSCar, que coordena o Laboratório de Estudos Ecológicos em Etologia e Evolução (Lestes), relembra os primeiros indícios da nova espécie, que ocorreram por volta de 2019. “Nós do laboratório trabalhamos há alguns anos no córrego do Espraiado e, um certo dia, percebi um macho dessa espécie pousado em uma árvore alta. Não conseguia capturá-lo para examiná-lo, mas a pulga ficou atrás da orelha porque uma espécie desse gênero azul é algo raro. Comentei com meu aluno de mestrado, Rodrigo Cezário, que provavelmente tínhamos uma espécie nova no local, mas nunca encontramos de novo. Até que, no ano passado, Rodrigo encontrou vários em um mesmo dia, inclusive fêmeas”, comemora o professor. Não houve um período específico em que a espécie foi descoberta, “pois procuramos ela por muito tempo com amostras qualitativas”.

O professor explica que, quando uma nova espécie é descoberta, o primeiro passo é comparar a sua morfologia com outras espécies do mesmo gênero. “A partir desse ponto, fazemos a descrição detalhada da morfologia e coloração da espécie encontrada, e o trabalho passa pelo crivo de colegas especialistas no grupo”, completa.

No contexto de São Carlos, a libélula Heteragrion gorbi foi descoberta em um dos poucos remanescentes de Cerrado da região, onde está a nascente do córrego do Espraiado, que abastece a cidade de São Carlos. “É um local cercado por condomínios fechados que tem resistido à expansão da cidade, mas é muito visitado pela população e, como é utilizado para a captação de água, muitas vezes tem sua vegetação marginal removida para a manutenção do fluxo de água captada”, explica o docente. Diante disso, ele faz um alerta para as várias ameaças de desmatamento dessa área de Cerrado e defende que “a descrição dessa espécie única no córrego do Espraiado pode ter um papel muito importante para a conservação do Cerrado de São Carlos e, principalmente, da nascente do Espraiado. Medidas para se conservar a espécie, que provavelmente já é descrita em risco de extinção, podem ajudar nesse processo de conservação e dar forças aos movimentos de proteção da área”.

Libélulas e o Cerrado
De acordo com Rhainer Ferreira, hoje há mais de seis mil espécies de libélulas no mundo, com estimativas que chegam a cerca de 6.500 espécies. No Brasil, temos mais de 700 espécies registradas, mas esse número deve passar de mil espécies com o avanço das pesquisas no país. “Infelizmente, não temos uma estimativa concreta para o Cerrado, mas grande parte dessas espécies ocorrem ali”, complementa o professor.

Segundo Ferreira, além de sua beleza e de ser um símbolo cultural em vários países, as libélulas são predadores vorazes na sua fase larval aquática, quando consomem larvas de mosquitos e outros animais pequenos, e também quando adultas. “Com seu rápido voo e olhos muito precisos, nada escapa”, afirma Ferreira. “Em outras palavras, são as grandes responsáveis por controlar populações de outros insetos e manter o equilíbrio ecológico. Além disso, são muito sensíveis à poluição das águas e ao desmatamento, sendo utilizadas como bioindicadores e espécies bandeira para a conservação do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia”.

Publicação
O artigo inédito sobre o estudo, que contou com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está disponível na íntegra na plataforma aberta Europe PMC, com o título “Heteragrion/ gorbi/ sp. nov. (Odonata: Heteragrionidae) from southeastern Brazil. – Abstract – Europe PMC”. A publicação também ganhou repercussão internacional e foi noticiada pelo site da Universidade de Christian-Albrechts (CAU), em Ziet, na Alemanha.

 

Fonte: UFSCAR (araras.ufscar.br)

Imagem: Divulgação

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