Não dormir uma noite prejudica ‘limpeza molecular’ do cérebro e isso não é compensado, diz estudo

Estudo publicado na revista científica Brain fornece a primeira evidência in vivo de que a privação de sono resulta em diminuição da depuração molecular do cérebro humano e que essa falha de depuração de uma noite pode não ser compensada pelo sono subsequente.

Passamos um terço de nossas vidas dormindo e isso sempre pareceu essencial, afinal, durante o sono, nosso organismo se recupera de todos os processos que enfrentou durante o dia enquanto o cérebro armazena informações. Mas um estudo recente, publicado no final de março na revista científica Brain, destacou o que acontece quando perdemos uma boa noite de sono. “Dados experimentais anteriores sugeriram que o sono é necessário para a eliminação de resíduos do metabolismo cerebral. Isso, entretanto, nunca foi verificado em humanos. Essa pesquisa forneceu a primeira evidência in vivo de que a privação de sono resulta em diminuição da ‘limpeza molecular’ do cérebro humano e que essa falha de depuração de uma noite pode não ser compensada pelo sono subsequente”, explica o Dr. Gabriel Novaes de Rezende Batistella, médico neurologista e neuro-oncologista, membro da Society for Neuro-Oncology Latin America (SNOLA).

O estudo foi aprovado por diversos órgãos noruegueses e foi registrado no Oslo University Hospital Research Registry. A condução do estudo foi regida por padrões éticos de acordo com a Declaração de Helsinque de 1975 (e conforme revisada em 1983). Os participantes do estudo foram incluídos após consentimento informado por escrito e oral. O objetivo do estudo era determinar se a privação de sono resulta em diminuição da depuração molecular do cérebro humano. A privação total de sono por 24 h em um dos grupos (grupo de privação de sono) foi a intervenção. Os participantes em privação de sono foram observados no setor de neurocirurgia pela equipe de enfermagem. Além disso, um parente próximo ficou com o participante durante a noite para ajudá-lo a ficar acordado. Desse modo, foi controlado que os participantes estivessem acordados do dia 1 ao dia 2. “Os pesquisadores administraram um agente de contraste de ressonância magnética, gadobutrol, por via intratecal para servir como marcador de LCR (Líquido Cefalorraquiano), que tem como uma de suas funções a remoção de resíduos provenientes da atividade cerebral”, explica o Dr. Gabriel.

No estudo, sete indivíduos sofreram privação total de sono do dia 1 ao dia 2 (grupo de privação de sono), e 17 indivíduos dormiram do dia 1 ao dia 2 (grupo de sono). Os dois grupos foram semelhantes em relação à idade, sexo, índice de massa corporal (IMC) e diagnóstico provisório. “As observações em todo o cérebro dos participantes mostram que a privação de sono afeta a depuração mesmo em partes profundas do cérebro, e que o efeito de não dormir, com relação à falta de depuração molecular, é prolongado (pico após 24-48 h)”, diz o estudo. “Foi estabelecido há muitos anos que a privação aguda de sono afeta negativamente uma ampla gama de funções cognitivas, incluindo memória, aprendizagem, atenção e reatividade emocional, de forma que não dormir por dias e semanas pode até ser fatal. Um tipo progressivo de insônia também já foi descrito em humanos (familiar ou esporádica) como um agravante para demência e morte. A privação crônica de sono emergiu até mesmo como um importante fator de risco para a doença de Alzheimer e neurodegeneração em geral”, explica o Dr. Gabriel. “Os resultados apoiam a hipótese de que o espaço intersticial aumenta no cérebro humano adormecido, como demonstrado anteriormente em roedores. Dessa forma, as observações do estudo têm implicações para a compreensão do impacto do sono perturbado na evolução da doença neurodegenerativa e podem apontar caminhos para aumentar o transporte molecular endógeno”, finaliza o neuro-oncologista.

 

Fonte: Dr. Gabriel Novaes de Rezende Batistella, médico neurologista e neuro-oncologista, membro da Society for Neuro-Oncology Latin America (SNOLA). Formado em Neurologia e Neuro-oncologia pela Escola Paulista de Medicina da UNIFESP, hoje é assistente de Neuro-Oncologia Clínica na mesma instituição. O médico é o representante brasileiro do International Outreach Committee da Society for Neuro-Oncology (IOC-SNO).

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