I May Destroy You ainda não acabou, mas já provou ser uma das melhores produções do ano

Em tradução livre de I May Destroy You: Eu Posso Te Destruir. Não poderia haver nome melhor para a nova série da HBO em parceria com a BBC, que de fato, pode te destruir. Caso você não tenha nem sequer ouvido falar desta obra-prima, atenção à minha indicação – sem spoilers – dessa semana.

É um misto de sentimentos a cada episódio de I May Destroy You. Eu choro, dou risada, fico de boca aberta, choro mais um pouco e depois volto a dar risada. Tudo isso dentro dos 30 minutos de episódio. Essa gama de emoções e transições de gêneros cinematográficos presentes na série só é possível graças ao trabalho excepcional de Michaela Coel (Chewing Gum), criadora, roteirista, protagonista e codiretora da série – um currículo simples – que entrega algo poucas vezes visto em produções.

Uma aula de roteiro bem construído
Em I May Destroy You, somos apresentados à história de Arabella Essiedu, uma escritora que ficou famosa após o lançamento de seu primeiro livro. Enquanto escreve sua segunda obra, Arabella decide sair para espairar na noite badalada de Londres com amigos, mas lá, é drogada e abusada sexualmente. Entretanto, a jovem não se lembra exatamente do que aconteceu, e é a partir daí que somos arrastados junto com a protagonista, pelas diferentes fases do trauma.

A série consegue mudar seu tom de forma muita rápida, mas bem-feita. Em um momento, Arabella está se divertindo na festa com os amigos em uma cena vibrante, colorida e millennial, em questão de poucos minutos, a personagem está de volta ao seu escritório, escrevendo seu livro, mas dessa vez, confusa e sem se lembrar do que aconteceu nas últimas horas ou como voltou para o escritório.

Tudo o que Arabella sabe, o telespectador sabe. Portanto, ao passo que a personagem vai descobrindo que foi abusada e os detalhes da fatídica noite, a angústia ao assistir a série aumenta cada vez mais, pois descobrimos tudo isso junto com Arabella. O que a personagem sente, nós sentimos.

I May Destroy You nos conta os perrengues não só de Arabella, mas também de seus amigos, a atriz Terry Pratchard (Weruche Opia) que luta na carreira de artista e Kwame (Paapa Essiedu), que é estuprado durante um encontro e vê sua vida virar de ponto cabeça. Os arcos secundários são muito bem construídos e também trazem problemáticas necessárias.

A relação de Arabella e Michela
Ao fim do primeiro episódio da série, eu já estava em um relacionamento sério com Michaela Coel e basicamente pesquisando tudo o que a internet tinha sobre a vida dela. E foi durante essa pesquisa, que descobri que I May Destroy You é parcialmente autobiográfica.

Durante uma palestra no Festival de Televisão de Edimburgo, Michaela revelou ter sofrido abuso sexual na época em que gravava Chewing Gum – série original da Netflix, que também foi criada e protagonizada pela artista. “Eu estava virando a noite no trabalho, tinha que entregar um episódio as 9 da manhã do dia seguinte”, comentou Coel em palestra. “Eu resolvi fazer um intervalo e encontrar uma amiga que estava por perto para tomar um drinque. A próxima coisa que eu me lembro é estar na frente do computador, no dia seguinte, digitando”. Michaela relata que, pouco depois, teve um flashback em que se lembrou de ser abusada sexualmente por “um grupo de homens desconhecidos”.

Em outra entrevista, Michaela diz ter sido catártico escrever sobre isso em I May Destroy You. “É gratificante poder escrever uma história do passado e reviver aquele sofrimento, mas perceber que estou aqui, no presente, e ainda assim ser capaz de sentir aquela dor. Isso significa que eu a sobrevivi. É linda essa sensação de poder sentir uma dor, sabendo que ela se foi”, afirmou a atriz.

Saber que Michaela passou por tudo isso e ainda, decidiu reviver esse trauma em I May Destroy You, tornou a série muito mais realista e angustiante para mim. Às vezes com um alívio cômico, outras bem pesada, a série trata de questões como abuso sexual e consentimento de uma forma incrivelmente natural, o que de certa forma, me deixou desconcertada em muitos momentos.

I May Destroy You veio mostrar para o que veio, mas alerto, pode ser pesada e não recomendada para algumas pessoas. Mas se após este texto, você decidir assisti-la, a série chegou à metade, então há tempo para colocar os episódios em dia. I May Destroy You vai ao ar todas as segundas-feiras, às 23h, na HBO.

Confira o trailer:

Por: Letícia Justino
Instagram: @leejustino_
Twitter: @leejus_

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