I Know This Much Is True: Uma obra dramática e melancólica, daquele jeito que gostamos

Antes de eu começar minha dissertação sobre I Know This Much Is True (HBO), já te aviso: essa produção não é para todo mundo. Não espere assisti-la em família depois do almoço. Já não bastasse toda a tragédia e tristeza que a atual pandemia nos trouxe, terminei de assistir I Know This Much Is True no último fim de semana, e cheguei à conclusão que essa é a minissérie mais melancólica, dramática e nefasta, que já vi, porém bonita, sensível e tocante ao mesmo tempo. Cada episódio uma lágrima. Recado dado.

Acompanhamos o drama de dois irmãos gêmeos, Dominick e Thomas, ambos personagens interpretados por Mark Rufallo, que traz a melhor atuação da sua carreira artística – arrisco dizer que será indicado a prêmios na próxima temporada de premiações.

Mesmo sendo gêmeos univitelinos, Dominick e Thomas são opostos. Dominick é um pintor divorciado e amargurado, que leva uma vida banal e sem qualquer prospecção de ambição. Enquanto que Thomas, caçula por alguns minutos de diferença, sofre de esquizofrenia e passa a maior parte de sua vida transitando entre instituições psiquiátricas.
Logo na primeira cena da minissérie somos apresentados a Thomas, que está em uma biblioteca pública e em um surto, decepa sua própria mão como um ato de sacrifício para que Deus perdoasse seus pecados. Um começo bem light. Thomas é socorrido e levado ao hospital, onde os médicos dizem que é possível reimplantar a mão decepada, mas é preciso que Dominick autorize. E temos nesse momento, uma das melhores cenas da minissérie. Thomas implora ao irmão mais velho que não autorize, pois esse foi um ato de sua própria escolha, um sacrifício que ele conscientemente decidiu fazer e diz a Dominick que ele precisa, pelo menos uma vez em sua vida, defende-lo. Dominick por sua vez, acaba cedendo aos pedidos do irmão e não autoriza a reimplantação, garantindo a Thomas, que recuperasse o poder de decisão sobre sua vida e corpo, e de certa forma, sua dignidade.

Após esses acontecimentos, Thomas é transferido para outra instituição psiquiátrica sem qualquer aviso prévio, fazendo com que Dominick, que se sente em eterna dívida com o irmão, tome para si o papel de protetor de Thomas e lute de todas as formas possíveis para tirar o irmão de lá. Paralelamente a tudo isso, somos levados ao passado dos gêmeos por meio de flashbacks desde as agressões na infância que Dominick e Thomas sofriam do padrasto, Ray (John Procaccino), o relacionamento deles com a mãe e o fato que ela escondeu a vida toda quem era o pai biológico dos irmãos, a época de faculdade e ao conturbado divórcio de Dominick com Dessa (Kathryn Hahn).

I Know This Much Is True (HBO) coloca Dominick como personagem principal e explora cada detalhe de sua vida perturbada e como sua reação a certos eventos afetaram não somente ele, mas outras pessoas ao seu redor. Com direção de Derek Cianfrance, a minissérie encanta com momentos silenciosos e longas tomadas que não precisam de diálogos elaborados para transmitir o drama que busca e consequentemente, trazer um certo mal-estar psicológico ao público. É difícil explicar esse mal-estar. Não é necessariamente algo visualmente perturbador, por exemplo, mas sim, um sentimento de tristeza e pesar ao acompanhar a história dessa família. Essa melancolia e tristeza marcante da minissérie é visível também na fotografia, que abusa dos tons frios como o azul e cinza.

Eu fiquei em dúvida se a HBO conseguiria se manter em alta após o encerramento de séries que foram um marco para a rede como Game Of Thrones e Veep e com a ascensão constante dos streamings, mas I Know This Much Is True me reforça como minha dúvida estava equivocada. I Know This Much Is veio para consolidar o catálogo já impressionante de produções originais da HBO, que ano após ano investe em obras de qualidade inquestionável.

Todo o elenco da série é formidável e entregam atuação excepcionais, mas a atuação de Mark Ruffalo e como ele foi capaz de incorporar dois personagens únicos e com trejeitos completamente distintos, vai além de uma mera performance dramática. O ator conta em entrevista que emagreceu cerca de 9 quilos para interpretar Dominick, e convenceu os produtores da série a fazer um intervalo de sete semanas para poder engordar 18 quilos para voltar a gravar as cenas interpretando Thomas – o tipo de transformação adorada pela Academia.

É verdade que a minissérie não traz qualquer alívio cômico. É uma narrativa extremamente realista do que a vida pode ser e é isso o que mais me prendeu. Mesmo com toda a melancolia que domina a série, a esperança de um final feliz, de uma redenção ou de um recomeço me envolveu de tal forma, que eu estava torcendo tanto para que pelo menos UMA COISA boa acontecesse na vida de Dominick e Thomas. Uma dica final: não esqueça de pausar os episódios para respirar, digerir e enxugar as lágrimas. Aproveite!

Confira o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=hHJDM040OT8
Por: Letícia Justino
Instagram: @leejustino_
Twitter: @leejus_

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