Estudo inédito feito em colaboração com MIT avalia interação entre prótese mamária de silicone e o sistema imunológico

Dados indicam que alterações na microestrutura da superfície da prótese levam a maior biocompatibilidade e menor risco de complicações como a contratura, doença do silicone e linfoma; pesquisa foi publicada na revista Nature Biomedical Engineering.

Após 4 anos investigando a interação entre as próteses mamárias de silicone e o sistema de defesa do corpo (imunológico), um estudo conduzido pelo MIT, em parceria com cirurgiões ao redor do mundo – inclusive um cirurgião plástico do Hospital Sírio-Libanês, avaliou como a textura da superfície da prótese mamária afeta o sistema de defesa do corpo. De acordo com os autores, esse estudo ajudará cirurgiões plásticos a avaliarem qual é a melhor opção de prótese para cada pessoa, a partir de quais texturas provocam menor resposta inflamatória e, por isso, têm melhor biocompatibilidade. Entre os mais de 10 quesitos analisados estão o aumento na produção de anticorpos, ativação de células T e espessura da cápsula criada em torno da prótese. Ao todo, foram considerados 5 tipos de próteses mamárias cujas características das superfícies variam em rugosidade e que são utilizadas em cirurgias estéticas e reconstrutoras da mama em todo o mundo.

“Os implantes de silicone, uma vez que são materiais sintéticos, provocam uma resposta do sistema imunológico. A diferença está no tipo de resposta e no grau de equilíbrio com nosso organismo. Isso é um fenômeno comum em qualquer implante como marca-passo, válvulas cardíacas, cateteres e até implantes dentários”, explica o cirurgião plástico do Hospital Sírio-Libanês, Professor do Programa de Pós-Graduação do Hospital e integrante do grupo que conduziu o estudo no MIT em Boston/EUA, Prof. Dr. Alexandre Mendonça Munhoz. “Enquanto os implantes de silicone de superfície mais ásperas provocaram uma resposta inflamatória maior, aqueles com superfícies com rugosidade menor causaram uma reação cujo objetivo era inibir a inflamação do tecido ao redor do implante”, complementa.

O especialista destaca que essa nova informação é extremamente valiosa para cirurgiões plásticos que realizam cirurgias estéticas da mama, mas também para aquele que reconstrói a mama após o tratamento do câncer. Segundo ele, por ser o desfecho de um tratamento longo e difícil para o corpo, os cirurgiões querem evitar qualquer complicação para aquele paciente. “Em nossas pesquisas realizadas no Programa de Pós-Graduação do Hospital Sírio-Libanês, 1/3 das mulheres passam por nova cirurgia em um prazo de 5 anos após o término da reconstrução da mama. Complicações advindas da hiper estimulação do sistema imunológico com fibrose, contratura capsular e até ruptura do implante estão entres as principais razões para as reoperações”, conta Munhoz. “Desta forma, novas tecnologias, como evidenciado na publicação da Nature, envolvendo implantes com menor rugosidade favorecem o processo de reabilitação dessas mulheres com câncer de mama, reduzindo assim o número de cirurgias a longo prazo. Estes aspectos têm impacto direto na qualidade de vida e também dos custos de todo o processo cirúrgico”.

Próteses com menor rugosidade na superfície podem combater efeitos adversos do implante

Os implantes de silicone são classificados utilizando a unidade de medida micrômetro (µm), que é obtida após uma avaliação da superfície por meio de um aparelho eletrônico e permite a classificação da rugosidade da superfície (roughness (Ra), em inglês). Os implantes mais bem avaliados pelo estudo têm um Ra de aproximadamente 3,2 µm.

As primeiras próteses de silicone que surgiram na década de 1960, por sua vez, são classificadas como lisas e têm um Ra de 0,27 µm, o que acarretava uma complicação em particular: a contratura capsular, fadiga do material e posterior ruptura. A contratura ocorre quando o organismo forma um tecido cicatricial em volta da prótese, que a aperta e provoca desconforto, dor, deformações visíveis e pode modificar o posicionamento do implante, o que requer cirurgias secundárias. Em mulheres submetidas a reconstrução da mama após o câncer, essas complicações podem ser mais incidentes devido as características do tratamento cirúrgico do câncer e a presença de radioterapia.

Na década de 1980, a indústria apostou no desenvolvimento de implantes com superfície macrotexturizada, com Ra superior a 50 µm, e microtexturizadas, com Ra entre 10 e 50 µm. O objetivo era combater o encapsulamento e ter maior adesão ao tecido humano. No entanto, em 2019, alguns implantes altamente texturizados foram relacionados ao desenvolvimento de um tipo raro de linfoma, o que provocou a retirada do produto do mercado. Uma das hipóteses levantadas na época pelo FDA, órgão regulador americano, seria a hiper estimulação do sistema imune (linfócitos T) decorrente do maior grau de rugosidade bem como a liberação de micropartículas de silicone em mulheres geneticamente suscetíveis. Ademais, alguns estudos demonstram que próteses com maior Ra favorecem a colonização bacteriana e formação de biofilme (tipo de colonização bacteriana crônica sobre a superfície do implante) o que também acarretaria o estímulo crônico do sistema imunológico e o desenvolvimento do linfoma.

Atualmente, há diversas opções de próteses disponíveis para avaliação e escolha do cirurgião para uso em cirurgias estéticas da mama, como aumento e suspensão mamária. Todavia, nos últimos anos o número de mulheres com silicone que relatam fadiga, depressão, mau funcionamento do intestino, dores articulares, entre outros sintomas, têm chamado a atenção da comunidade médica, que avalia o surgimento de uma nova doença, chamada popularmente pelos pacientes de Doença do Silicone (Breast Implant Illness – BIIs, em inglês).

“Embora essa condição ainda esteja sob investigação, a suspeita é de que as próteses com maior rugosidade poderiam levar a hiperativação crônica dos linfócitos T, algo semelhante a etiologia do Linfoma de Células Anaplásicas, porém sem o desenvolvimento do câncer e sim dos sintomas reumatológicos. Ademais, há descrições de partículas de silicone na cápsula do implante que contribuem para o processo inflamatório crônico, afetando principalmente mulheres com predisposição à doenças reumatológicas. Os resultados do nosso estudo são promissores, pois demonstram de maneira clara a menor estimulação auto-imune e menor formação de fibrose em um tipo muito particular de superfície. Em outras palavras, o design da superfície do implante muda sua performance e como ele interage com nosso organismo. Esta maior biocompatibilidade, além de auxiliar na escolha da prótese, abre um novo caminho para que a ciência estude essa condição e as formas de preveni-la ou tratá-la”, explica o especialista.

Iniciado em 2016 e finalizado em 2020, o estudo foi publicado em 21 de junho no periódico Nature Biomedical Engineering, uma das revistas de maior impacto no mundo na área de biotecnologia. Conduzido pelo MIT (Harvard-MIT Division of Health Science Technology / David H. Koch Institute for Cancer Research) em Boston e em parceria com o MD Anderson Cancer Center, no Texas (EUA), teve também a participação de cirurgiões plásticos dos Estados Unidos, Inglaterra e Brasil. A pesquisa contemplou duas etapas com modelo animal e uma terceira, que analisou amostras de tecido oncológico e próteses de pacientes explantadas. Esse modelo permitiu que os pesquisadores observassem os mesmos resultados em humanos e animais, o que reforça a robustez da descoberta.

 

Fonte: Hospital Sírio Libanês

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