Empresários se unem nas manifestações em favor da democracia e do sistema eleitoral brasileiro

“É o início de uma mobilização que precisa crescer para dar conta deste momento delicado.” É desta forma que o professor de Ciência Política da USP, José Álvaro Moisés, analisa o manifesto assinado por empresários e outros representantes da sociedade civil, lançado nesta quinta-feira, dia 5, em favor da democracia e do sistema eleitoral brasileiro.

No manifesto publicado no site intitulado Eleições serão respeitadas, o texto cita que um “futuro só será possível com base na estabilidade democrática. O princípio-chave de uma democracia saudável é a realização de eleições e a aceitação de seus resultados por todos os envolvidos”. Termina afirmando confiança no atual sistema de votação eletrônico e salienta que “a sociedade brasileira não aceitará aventuras autoritárias”.

Em reportagem publicada no jornal O Globo, nesta sexta, dia 6, empresários que assinaram o manifesto disseram que “tomaram a decisão de romper o silêncio sobre a ofensiva do presidente ao identificar um risco real de ameaça à democracia, e que sentiram a necessidade de mandar um recado claro, reforçando que a sociedade não aceitará retrocessos autoritários”.

Renato Janine Ribeiro, filósofo, cientista político, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), foi um dos intelectuais que assinaram o manifesto, e fala sobre a importância da participação de economistas e empresários.

“É importante esse manifesto em defesa das eleições, das urnas eletrônicas, da normalidade constitucional, que tem em seu núcleo economistas e empresários, porque não estamos acostumados a ouvir as pessoas vinculadas às atividades econômicas se opondo ao governo. Estamos mais acostumados a ouvir as pessoas do lado acadêmico, cultural e científico.”

Para Deisy Ventura, professora de Ética da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a história mostra como governos e pessoas autoritárias podem atentar contra a democracia.

“Quando nós estudamos a história dos regimes autoritários, sempre existem períodos como este que estamos vivendo no Brasil, em que tudo já foi dito. As pessoas que atentam contra a democracia repetem de maneira impune o que elas pretendem […] Esse manifesto é a reação imprescindível, é o que todas as forças da sociedade deveriam dizer.”

O professor José Eduardo Faria, chefe do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, diz que o engajamento de empresários e intelectuais é uma sinalização muito forte da sociedade civil em defesa da ordem jurídica.

“Quando vemos o peso econômico dos empresários que assinam, fica evidente que eles sabem o que estão fazendo e temem claramente que o Brasil aprofunde a imagem que ganhou com o governo Bolsonaro, de pária internacional. […] Esse isolamento significa a não entrada de capitais, riscos de pressões comerciais, rupturas de contratos, é uma advertência muito séria feita para o presidente Bolsonaro e para os militares.”

José Álvaro Moisés, professor da FFLCH e do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenador do Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia e pesquisador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, fala que o documento lançado é uma verdadeira tomada de posição da sociedade civil brasileira, que reage às ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro contra as instituições democráticas.

“Eu penso que é o início de uma mobilização que precisa crescer para dar conta deste momento delicado. O foco mais importante desse manifesto é um aspecto que corresponde ao que é uma democracia, ele insiste e mostra que o importante é o respeito à lei e às regras do jogo, pelas quais a democracia funciona. A principal regra são as eleições, através das quais os eleitores escolhem quem governa e que políticas públicas serão aplicadas. As regras não podem ser fraudadas, nem desrespeitadas.”

Lorena Barberia, professora livre-docente do Departamento de Ciência Política da FFLCH, pesquisadora do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais (NECI) e do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, fala que o manifesto responde a uma mobilização da sociedade civil que entende que as instituições precisam ser melhoradas, mas também precisam ser protegidas.

“Existem leis e a Constituição, todo um trabalho muito sério por trás das eleições. O processo eleitoral tem sido aprimorado ao longo da nossa democracia, e vai continuar sendo algo que vamos melhorar, mas vamos fazer isso de uma forma que fortaleça as instituições e a democracia.”

 

Fonte: Jornal da USP

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