Ansiedade infantil na pandemia: psicóloga orienta como ajudar as crianças a passarem por esse momento delicado

Em tempos em que não há previsibilidade dos próximos acontecimentos, nos quais há uma exposição de notícias desagradáveis, em que o risco de contaminação é real, nos deparamos com um número crescente de pessoas que procuram por tratamento para lidar com a ansiedade, que ganha força nesse momento em que há tantas perguntas sem respostas.

Mas afinal, o que é ansiedade? Como tem atingido as crianças? Quais caminhos ou estratégias podem ser utilizados para auxiliá-las a ultrapassar esse período de turbulência?

A ansiedade é uma reação natural do nosso organismo. Sua função é nos preparar para ação e tem o objetivo de proteção diante de situações temidas, sendo essas reais ou imaginárias. Ela pode ser adaptativa ou disfuncional.
Para a primeira situação, pode-se usar o exemplo de uma pessoa que irá realizar uma prova difícil. Nesse caso, a ansiedade pode contribuir na organização, na busca de um plano de ação que a prepare da melhor forma possível para enfrentar essa situação.

A ansiedade, todavia, também pode ser desadaptativa, se frente a esse mesmo evento, ela paralisar a pessoa, ou gerar tamanho sofrimento que pouco colabore para o seu esforço de resolução ou de superação da circunstância específica.

Neste último contexto, a ansiedade passa a ser um problema quando traz sofrimento e interfere na qualidade de vida do indivíduo, podendo trazer impacto no sono, nas relações sociais, no exercício profissional ou acadêmico e na própria saúde física. Inclusive, quando apreensiva, a criança com ansiedade pode se queixar de dor de estômago, dor de cabeça, fadiga, entre outros desconfortos.

Os transtornos de ansiedade na infância e adolescência são comuns. De acordo com Stallard, autor da obra Terapia Cognitivo-Comportamental para crianças e jovens, a cada dez crianças e adolescentes, um apresentará algum transtorno de ansiedade. A resposta da ansiedade é complexa e envolve os seguintes componentes: cognitivos, geralmente pensamentos que envolvem a avaliação de riscos antecipados e preocupações, fisiológicos, que preparam o corpo para ações do tipo luta e fuga, isso explica a aceleração do batimento cardíaco, por exemplo, e comportamentais, que ajudam a criança a antecipar e evitar um perigo futuro.

Ainda sobre os componentes cognitivos, as crianças tendem a se preocupar com a escola, com a saúde e com possíveis danos pessoais. Já na adolescência, há uma prevalência de temores relacionados às comparações sociais, em relação a falhas, aparência física e críticas.

A psicóloga, Eloísa Boppré Belli, lembra que a mudança enfrentada pelas crianças com a chegada da pandemia foi muito grande e repentina. “De uma semana para outra, crianças pararam de frequentar presencialmente as escolas, parques fecharam, alguns espaços públicos ficaram intransitáveis, um risco imaginário se tornou real. Foi de repente que festinhas de aniversário, encontros e reuniões de trabalho passaram a acontecer por aplicativo. Foi assim, sem avisar, que todos tiveram que improvisar uma nova forma de se relacionar, de ser e estar nesse mundo”, ressalta a psicóloga.

Ainda segundo a especialista, “estudos recentes, sendo um deles o ‘Reflexões baseadas na Psicologia sobre o efeito da pandemia COVID-19 no desenvolvimento infantil’ apontam que esse período de confinamento pode trazer impactos psicológicos para as crianças, que ficaram mais expostas a estressores como: medos de infecções, informações inadequadas e perda do contato social com professores, colegas e alguns familiares. Sendo que as consequências mais imediatas que a pandemia trouxe na vida dos pequenos foram: dependência excessiva dos pais, preocupação, problemas de sono, desatenção, pesadelos, desconforto, agitação, entre outros”.
Frente a essas questões, a psicóloga sugere algumas ações para amenizar esses impactos na vida das crianças.

Confira:
É importante estabelecer uma nova rotina consistente que respeite o tempo de sono indicado para cada faixa etária; que estipule horários de dormir e acordar; que não exponha excessivamente as crianças ao uso de telas; que as auxilie a organizar o horário das atividades escolares; e que também possibilite atividade prazerosas e brincadeiras.

Monitorar os conteúdos acessados evitando o excesso de notícias sobre a COVID-19 e de programas inapropriados, atentando-se para que as crianças não deixem de fazer suas atividades (sejam escolares ou de outra natureza qualquer, como interação com a família) para ficarem em função de jogos, por exemplo.

Os responsáveis pelos cuidados da criança devem oferecer informações claras ao mesmo tempo em que respeitem o seu grau de compreensão dos filhos e validem as emoções que emergem dentro desse “novo” contexto. Os pais olharem para seus próprios medos e preocupações, também é um ato de cuidado, uma vez que as crianças percebem as apreensões que existem ao seu redor.

Buscar por atividades prazerosas é essencial para tornar esse período mais suportável. Incentivar as crianças a brincar de coisas diferentes, a criar e reciclar. Sentar-se com elas e participarem também dessas atividades, além de ser uma fonte de distração, fortalecem o vínculo da criança com o seu cuidador e podem auxiliar no processo do seu desenvolvimento cognitivo e social.

Dentro das possibilidades, dedicar-se aos exercícios físicos. Eles podem trazer contribuições a curto e longo prazo, impactando positivamente na qualidade de vida, na autoestima e na sensação de bem-estar.

O relaxamento também é uma estratégia muito interessante e bastante difundida. Sua prática altera as reações do corpo ocasionando a desaceleração dos batimentos cardíacos e diminuição da tensão muscular. Vale colocar uma música calma, incentivando as crianças a respirarem de forma tranquila e profunda. O envolvimento da família toda na prática de exercícios relaxantes é uma das melhores maneiras de ensinar uma criança a relaxar.

A psicóloga Eloísa Boppré Belli enfatiza que, uma vez identificado um intenso sofrimento da criança, a família deve procurar por acompanhamento especializado, que avalie e possa realizar uma intervenção eficaz, que considere a particularidade de cada história.

“A participação ativa e consciente, a abertura para diálogo, a validação das emoções, a previsibilidade possível dentro do meio imediato, a percepção de um ambiente seguro, o vínculo com seu cuidador, são alentos para que os pequenos possam atravessar esse momento que exige cuidado, paciência e muito afeto”, completa Eloísa.

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