365 Dias confunde erotismo com abuso e consegue ser pior do que 50 Tons de Cinza

Se arrependimento matasse, eu estaria enterrada a sete palmos do chão. Essa foi a sensação depois de assistir 365 Dias, lançamento da Netflix em um estilo 50 Tons de Cinza, mas que tem a proeza em ser pior. Antes de eu me aprofundar nessa coluna, já deixo um aviso: isto não é uma recomendação para você assistir, mas uma mistura de crítica e desabafo. Esse texto contém spoilers. Dito tudo isso, vamos seguir.

“Uma executiva de espírito livre vive um relacionamento sem graça até se tornar refém de um chefe da máfia, que estabelece um prazo para que ela se apaixone por ele”. Essa é a sinopse do longa divulgada pela Netflix e apenas nesses 163 caracteres, já percebo o quão problemático esse filme é. A personagem principal, Laura, está de férias na Itália com o namorado, quando é dopada e raptada pelo sedutor chefe da máfia (com referências envergonhosas à obra O Poderoso Chefão), Massimo – que de máximo não tem nada – que fica fissurado pela jovem após vê-la uma única vez cinco anos atrás. O roteiro até tenta explicar essa obsessão do personagem, mas não passa de uma justificativa fraca e esfarrapada.

Logo após o rapto, Laura acorda perdida em uma cama – sem qualquer vestígio de medo ou desespero – e é surpreendida por Massimo, que revela que a sequestrou para fazê-la se apaixonar por ele. Eu achava que não poderia piorar, mas me lembrei da Lei de Murphy: Tudo o que puder dar errado, dará. Eu poderia elaborar um TCC sobre o quão ruim esse filme é, mas vou tentar resumir para vocês.

O restante do longa basicamente se resume em Massimo jurando que está arrasando na arte da conquista, quando na verdade comete uma série de abusos e assédios contra a personagem, enquanto que Laura, inicialmente, rejeita-o e busca fugir, mas acaba claramente desenvolvendo uma Síndrome de Estocolmo (estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade pelo seu agressor) e se apaixona pelo mafioso em poucas cenas.

Mas o grande problema do filme polonês ao meu ver, não é o roteiro cheio de furos e diálogos ridículos, cenas com escolhas musicais terríveis que mais parecem um clipe musical, as atuações fracas ou até mesmo as cenas eróticas apelativas, mas, sim, a romantização inaceitável do estupro e sequestro, e supervalorização da masculinidade. Fica mais do que claro, durante todo o filme, que o roteiro não sabe diferenciar erotismo de abuso.

A ideia central do longa é uma releitura adulta e agressiva de A Bela e a Fera, em que um homem brutamonte, grosso e violento trancafia a donzela em seu palácio, que eventualmente, de uma maneira muito distorcida, acaba se apaixonando pelo homem e percebe que ela e seu amor são a chave para a redenção da fera. Me decepciona, mas não me surpreende, que desde que estreou, 365 Dias continua em primeiro lugar no Top 10 Brasil da Netflix, escancarando nossa sociedade machista que consome e normaliza temáticas como essa.

365 Dias romantiza a violência sexual, o relacionamento abusivo e um comportamento extremamente tóxico e doentio do protagonista. A obra é péssima em tudo o que diz ser. Péssimas atuações, falha ao tentar ser um suspense, roteiro mal feito, discurso problemático e, por fim, nem sequer entrega o erotismo que promete.

Por: Letícia Justino
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Twitter: @leejus_

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